Interstellar, filme dirigido por Christopher Nolan, foi um dos mais aguardados quando estreou. Primeiro, obviamente, pelo simples fato de ter Nolan como diretor e seu irmão mais novo, Jonathan Nolan, colaborando com o roteiro, revivendo uma parceria que deu muito certo em filmes como O Grande Truque e The Dark Knight/The Dark Knight Rises na trilogia destruidora do Batman.

Segundo porque o elenco é ótimo, com Matthew Mcconaughey em uma grande fase na carreira, Anne Hathaway Miss Via Láctea 2014 e o Michael Caine, nosso eterno Alfred.

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De mordomo a cientista, sem supletivo, em menos de dois anos. (linkedin.com)

Mas o principal motivo pra toda a ansiedade da galera que pira em SciFi era mesmo a força física que Interstellar tinha em seus bastidores. Quando digo “força física”, me refiro ao apelo científico, não à massa muscular. Antes mesmo do lançamento do filme, diversos especialistas em Física relacionados à produção da obra afirmaram que os efeitos especiais eram tão bons e fieis à realidade que novos estudos científicos poderiam ser feitos e aprofundados com base no longa.

E isso não foi por acaso. A própria concepção de Interstellar foi diferente do comum. Antes mesmo de existir um roteirista ou um diretor para a obra, a produtora Lynda Obst (Como Perder um Homem em Dez Dias) ligou para o amigo dela, um tal de Kip Thorne, que por acaso é uma das mentes mais brilhantes da Física contemporânea.

Lynda explicou a Kip que gostaria de realizar uma super-produção de ficção científica, e contava com a colaboração dele com os “detalhes” científicos. Kip, que tem um nome a zelar no mundo acadêmico, aceitou a incumbência, com uma condição: todos os eventos físicos deveriam ser baseados em verdades constatadas da Física, em teorias, teses ainda em busca de comprovação ou em especulações formuladas por cientistas de respeito.

E é esse compromisso com a “verdade” (mesmo que seja especulativa) que tornou Interstellar um filme diferente. Leis, teorias, teses e especulações são utilizadas de maneiras extremamente criativas no roteiro dos Nolan, sempre com o aval e as contas de Kip Thorne.

A praga no começo do filme, por exemplo, que fatalmente acabaria com a vida na Terra, foi resultado de um debate entre os mais renomados especialistas na área. As contas a respeito da gravidade na lousa do Professor Brand são reais, e foram escritas a giz pelo próprio Kip.

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Mito da Física com PhD em caligrafia.

Buracos negros, buracos de minhoca, bulk, outras dimensões, teoria das supercordas, viagem no tempo; tudo isso é abordado no filme. Alguns dos eventos recebem breves explicações no longa. Outros ficam no ar e te fazem sair do cinema com um leve curto circuito no cérebro, o que não é de todo mal.

Percebendo o quão complexo eram os elementos científicos no filme, o próprio Kip Thorne escreveu o livro The Science Of Interstellar (com prefácio de Christopher Nolan), que explica detalhadamente – e de forma relativamente simples para leigos como eu – cada evento físico presente na obra, mesmo aqueles que ainda não tem prova constatada.

Se você não tem paciência para ler um livro inteiro em inglês sobre Física (eu não te culpo), um amigo meu que por acaso é doutorando em Física postou uma explicação mais concisa e simples aqui. E claro, em português.

Uma dica para curtir o filme: não se atenha apenas à história em si ou como, obviamente, os astronautas conseguem salvar a humanidade. O roteiro no geral é bom. Tem algumas viagens, mas o foco não é nele – ele é adequado às centenas de normas que um blockbuster desse tamanho possui. O que ocorre com as personagens é apenas um caminho que leva o espectador a vivenciar situações extremas da Física. Se alguém de Interstellar fosse indicado ao Oscar de Melhor Ator, esse alguém teria de ser a própria Física em si. Ou talvez o buraco negro Gargantua, que atrai todas as atenções (e todo o resto também) para ele.

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Gargantua Profundua – literalmente. (slate.com)

Muito da ciência em Interstellar está além da compreensão humana nos dias de hoje. Mas tem base em especulações que não podem ser completamente descartadas; ou seja, até a maior viagem presente no filme (que é inteiro uma grande viagem) não pode ser PROVADA completamente impossível. E isso já é algo revolucionário para um filme multimilionário científico destinado ao público geral.

Essa é uma das belezas do filme e algo que poderá torná-lo uma obra eterna. Conforme a ciência avançar, com certeza teremos futuras explicações sobre os eventos absurdos em Interstellar – sejam elas explicações sobre como determinadas especulações estavam certíssimas ou como erraram por muito.

O próprio Kip Thorne afirma que quis se tornar um cientista após ler os livros de SciFi do Isaac Asimov, um dos maiores escritores da história. Foi a ficção que levou Kip à ciência real, e Kip contribuiu muito para a evolução do que conhecemos do Universo hoje em dia. Assim como outros cientistas inspirados por George Lucas ou Douglas Adams.

Não tenho dúvidas de que, assim como Kip foi influenciado por Asimov, ele e os Nolan influenciaram muitos garotos e garotas, que agora sonham em se tornar cientistas. Eu espero que, daqui uns 50 anos, quando eu estiver velho, fumando charutos e lendo um livro por dia, eu possa ver a notícia de que um/uma grande cientista seguiu essa profissão graças a Interstellar.

Essa é a maior Força do mundo da arte; a contribuição que ela dá e as transformações que exerce sobre a própria realidade.

 

Texto originalmente publicado no site cuzcuzliterario.com.br, em 2014

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