Por que o seriado fez tanto sucesso e por que o final foi um “fracasso”?

2015 foi o primeiro ano desde 2005 em que os fãs de How I Met Your Mother não passaram horas bebendo com os amigos no McLaren’s. Além de ser uma das melhores comédias da história, a série ganhou um ar polêmico após o seu final, dividindo até mesmo os fãs. Hoje darei minha humilde opinião sobre os motivos que envolvem o sucesso da obra, e posteriormente, vou dizer porque acho que o final foi tecnicamente ruim.

 

8 motivos para a série ter sido um sucesso instantâneo

1 – Estrutura singular: gostando ou não do seriado, uma coisa é fato: o modo que a história de Ted Mosby é contada é muito interessante. Logo de início, todos já sabem que ele conheceu a mulher da sua vida, teve dois filhos e que essa saga foi inusitada. Mas ninguém sabe como isso aconteceu e nem por quê, o que aguça a curiosidade do telespectador. Assistir o episódio piloto de HIMYM e não acompanhar a série até o fim é como ouvir o começo de uma piada que parece ser muito boa e ir embora.

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Nove anos em cárcere privado. (ca.news.yahoo.com)

2 – Personagens com grande poder de identificação: Você é alguém que tem azar nos relacionamentos, mas ainda assim busca incessantemente o amor da sua vida em cada esquina, mesmo que em segredo? Não, ok. Você já encontrou o amor da sua vida e sabe como é difícil manter um relacionamento longo, mesmo que essa seja pessoa certa? Vamos pra próxima. Você é uma pessoa independente que não precisa de alguém pra te completar e se dedica muito ao trabalho? Ou então você pega todo mundo e não se importa com essa besteira de sentimentos?

Com cinco personagens, HIMYM abrange uma camada gigantesca da sociedade, e os espectadores sempre gostam de acompanhar histórias de pessoas que eles sabem que poderiam ser eles mesmos.

3 – Identificação do grupo: Você já se achou no seriado, agora você precisa achar os seus amigos também. Todo solteiro azarado tem um casal perfeito para observar e admirar/sentir inveja. Todo pegador tem um amigo solteiro azarado que o acusa de viver uma vida vazia. Todo casal bem estruturado conhece aquela pessoa que é solteira convicta e sente pavor de bebês.

A relação dos cinco personagens de HIMYM é forte porque eles são fidedignos; obviamente a série é cheia de exageros pra se tornar inusitada, mas a essência resumida de cada um poderia muito bem estar em um grupo que você encontra quando vai tomar uma na Augusta.

4 – Lições de moral realistas em cada episódio: A tendência de personagens e histórias obscuras cresce cada vez mais mundialmente. Isso porque nós vivemos em um tipo de sociedade em que é difícil achar motivos para o otimismo; o resultado é que o otimismo cego acabou se tornando brega pra muita gente, e a arte reflete a sociedade.

Bom, mas não dá pra ser nebuloso e maquiavélico em uma sitcom. Os autores acharam uma maneira de instituir seu senso moral sem ser piegas demais. Todas as “morais das histórias” do final de cada programa sempre foram pé no chão. Nunca houve uma promessa absurda de que A VIDA É PERFEITA, ou VOCÊ VAI SER FELIZ PRA SEMPRE FIM. Todos os fatos possuem seus prós e contras, como tudo na vida, e cabe às personagens, como cabe a nós, aprender a viver com isso e pronto. Sucesso é sofrimento.

5 – Teses/teorias geniais: Esse talvez seja o maior diferencial de HIMYM: as teses e teorias criadas no seriado (normalmente vindas do sábio Barney Stinson), muitas vezes refletem a nossa própria realidade. Prova maior disso é a constatação científica de que o “Cheerleader Effect” realmente existe.

Outra teoria que faz muito sentido é o Mermaid Effect, que diz que longos períodos de amizade às vezes acabam fazendo com que duas pessoas que nunca se acharam atraentes se apaixonem (essa compete com a Teoria da Friendzone, que também é bem forte).

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E as Woo Girls. Nunca se esqueça das Woo Girls. (magicschoolhouse.wordpress.com)

6 – Valorização da Marca: Determinados assuntos de HIMYM transcendem o seriado e se tornam multimídia. Por exemplo, você passa o seriado inteiro vendo o Barney usar os jeitos mais “exóticos” para conseguir conquistar mulheres. Se você quiser conhecer todos, é só comprar o livro “The Playbook”.

Ou então você quer seguir um manual de conduta com seu amigo, pra tirar certas dúvidas de como agir em determinadas ocasiões. “The Bro Code” tá aí pra isso.

Não, eu não ganho nada anunciando esses livros aqui, mas li em um blog que você deve divulgar o que acha engraçado, assim pode fazer mais pessoas rirem com você. Aliás, li isso em um blog bem interessante, de um cara chamado Barney Stinson.

Em suma, os roteiristas de HIMYM souberam trabalhar muito bem seus devaneios em outras mídias; escrever um livro ou criar o blog de uma personagem faz com que ela pareça ainda mais real ao espectador, que já costuma criar carinho pelas pessoas que vê na TV temporadas a fio.

7 – Personagens têm memória: Outro diferencial muito importante que mesmo sitcoms consagradas não trabalham; as personagens de HIMYM têm memória. Por que o Ross usa UNAGI apenas em um episódio? Por que o Charlie Harper nunca comenta com ninguém sobre o dia que o Steven Tyler bateu na porta da casa dele? Tudo isso tira o realismo dos seriados que não são contínuos no aspecto do “dia-a-dia”.

Isso gera uma grande identificação. Se você é fã de HIMYM, você já deu um HIGH FIVE, ou soltou algum LEGEN…wait for it..DARY, porque além de ter te divertido em algum momento, isso reaparece no seriado a todo instante. Amigos têm piadas internas, então nada mais normal do que personagens amigos também terem! O que não é normal é ter uma aposta valendo cinco tapas na cara com seu amigo gigante, não faça isso.

8 – Evolução das personagens/perseguição de sonhos: Essa é “batida”, mas deve ter em todo seriado de comédia; as personagens, ou pelo menos algumas delas, devem evoluir. EM HIMYM, todos têm grandes sonhos, seja na área de arquitetura, arte, direito, jornalística ou em brincar de WAR contando as mulheres de cada país do planeta. O que importa é que as personagens possuem sonhos e estão sempre atrás deles, lutando, literalmente brigando pra que eles se realizem.

E é esse acompanhamento da evolução psicológica e perseguição de sonhos que faz os espectadores criarem um carinho cada vez maior por seres fictícios.

 

Fecho esse texto citando a música Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Isso porque essa foi a parte doce de HIMYM. A próxima será a amarga.

 

Texto originalmente publicado no site cuzcuzliterario.com.br, em 2015

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