Por que o seriado fez tanto sucesso e por que o final foi um “fracasso”?

No texto anterior, falei sobre vários aspectos que fizeram de How I Met Your Mother um dos maiores seriados desse milênio. E como prometido para uma análise balanceada, o texto a seguir é sobre as falhas da obra, principalmente na última temporada.

Como esse texto é a antítese da parte 1 e eu fechei o anterior com uma música, a canção na parte 2 vem antes da lista, e também combina bem com o tema. Ouça durante a leitura a uma distância segura de objetos cortantes.

 

7 motivos que fizeram o final da série ser ruim

1 – Vinte e dois episódios em um único final de semana: A menos que você seja o Jack Bauer e em 24 horas você acompanhe ataques terroristas, aviões caindo, políticos safados e uma forte prisão de ventre, você não tem história suficiente para contar sobre seu dia ou final de semana em uma temporada inteira.

Os vinte e dois primeiros episódios da última temporada de HIMYM acontecem em um único final de semana, o que deixa o ritmo da história arrastado. Muitos dos episódios são destinados a fechar arcos que duraram a série inteira – como a aposta de Barney e Marshall – e explicar o que ficou em aberto por nove temporadas, como a (broxante) misteriosa profissão de Barney. Fica a clara impressão de que os roteiristas estão enrolando, com episódios que não fazem grande diferença no todo e, para falar bem a verdade, nem são tão engraçados.

 

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I SIGN PAPERS, I’M AWESOME! (fanpop.com)

2 – Décadas em dois episódios: Ok, sobrevivemos aos vinte e dois longos episódios em um único final de semana. E assim, sem mais nem menos, no episódio duplo de final de série, somos transportados tantas vezes ao futuro que nos perdemos no espaço-tempo.

O problema não é migrar para o futuro; isso é um recurso natural para se explicar determinadas coisas em um seriado. O problema é dividir acontecimentos importantes em tantos “presentes” diferentes que o espectador se perde e não sabe mais aonde está. Mudar tantas vezes de tempo gera confusão e quebra de compreensão.

3 – Ausência de Marshall: Em média, cada episódio de HIMYM tinha em torno de duas semanas de intervalo entre um e outro. Mas o coitado do Marshall resolveu viajar na hora errada, o que custou a ele longos 13 episódios longe da família e dos amigos.

Não sei se isso foi uma vingança pelo ator Jason Segel não ter aceitado a renovação prontamente para a última temporada, se ele não podia participar junto com os outros de todas as gravações ou se isso fazia parte do roteiro mesmo. O que ficou claro foi a falta de histórias relevantes com o Marshall, e um espírito de “quebra” no grupo por um bom tempo. O que nos leva ao próximo item.

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Eu sou o Marshall de HIMYM, eu juro! (fanpop.com)

4 – Falta de importância de Marshall e Lily no último episódio: Tudo bem que a série é sobre Ted e como ele conhece a mãe dos filhos dele, e Robin e Barney acabam tendo bastante importância mesmo nesse momento. Porém, com o desenrolar dos anos a amizade e importância de todas as personagens crescem e elas merecem destaque também, certo?

Errado! Enquanto a trama de Ted, Robin e Barney possui morte, doença, divórcio, pai solteiro/pai viúvo, triângulo amoroso e afins, Marshall e Lily são resumidos a viagens e filhos. Basicamente, é assim que a história deles termina pra mim. Filhos e viagens, não necessariamente nessa ordem. Viagens internacionais e paternidade são assuntos extremamente importantes, mas não do jeito que foi passado pros espectadores. Vendo de fora, fica a clara impressão de que os roteiristas “colocavam ali o Marshall e a Lily pra ter uns filhos e fazer umas viagens enquanto a gente conta a história que realmente importa”.

5 – Vazamento de informação: Um ônus do formato inovador e inteligente da série é que as cenas com os filhos de Ted dizendo para ele ‘IR ATRÁS DA TIA ROBIN, QUAL É O NOME DA NOSSA MÃE MESMO?’ foram gravadas no começo do seriado, pela razão óbvia do envelhecimento dos atores.

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Se nós fôssemos os filhos, esse problema não existiria!

Os spoilers foram muito bem protegidos; até a última temporada. Seja por vazamento de informações ou pela maluquice de fãs psicóticos que adoram criar teorias (tamo junto), umas três semanas antes do finale de HIMYM surgiu o papo de que a mãe morreria e que o Ted ficaria com a Robin. Isso quebrou e muito a tensão e a força que seriam geradas caso os fatos tivessem se mantido na obscuridade até a exibição do último episódio.

6 – Desconstrução em minutos de algo que vimos crescer em anos: Esse talvez seja o pior dos defeitos. Barney se apaixona pela Robin na terceira temporada. Passamos quase sete anos assistindo as desventuras dos dois, idas e vindas, a evolução do sentimento – isso sem contar os vinte e dois episódios para a preparação do casamento.

E o que acontece no último episódio? É, não tá dando certo, acabou. Pronto. Em cinco minutos, está destruído o que levou centenas de horas para se realizar, com uma explicação mais do que rasa. Em um tempo em que vemos inúmeros relacionamentos vazios, em uma sociedade que muitos optam por trocar algo ligeiramente quebrado ao invés de lutar para consertá-lo, deixar essa mensagem de “deixa pra lá” com um casal construído depois de tanto tempo é temeroso.

Entendo que muita gente realmente estava torcendo pra Robin ficar com o Ted, mas a questão aqui é o desleixo com que o final de Robin e Barney foi contado.

7 – Roteiro circular: Marshall e Lily vivem uma união tranquila e são muito felizes. Seu amigo, Barney, é um solteirão que adora curtir a vida. Já Ted é apaixonado por Robin, e pretende entregar uma corneta azul para provar a ela que ela não é qualquer uma.

Essa sinopse com cara de Sessão da Tarde é do primeiro ou do último episódio? Tanto faz, serve pros dois! Nós passamos nove anos com aquele grupo freestyle de cinco amigos e o final deles é igual ao começo.

Obviamente, algumas coisas mudam; Marshall e Lily se casam e têm filhos (e viajam, claro), Ted tem filhos e é viúvo, Barney tem uma filha (pelo menos uma reconhecida, já que ele deve ter mais umas dezessete só na região de NY); mas a essência é a mesma. As mesmas paixões, os mesmos romances e os mesmos estilos de vida estão presentes em 2005 e 2014. E o resultado foi diversos fãs se sentindo “enrolados e enganados” por muitas temporadas para tudo terminar como começou. É uma leitura possível.

 

Como as coisas poderiam ter sido feitas?

Pequenos detalhes poderiam ter ajudado muito na construção da última temporada. Por exemplo, se ao invés de gastar 22 episódios contando apenas um final de semana nós pudéssemos ver flash forwards sobre elementos importantes do futuro, algumas coisas não ficariam tão jogadas no ar.

Imagine se víssemos dez episódios com momentos de desentendimentos entre Robin e Barney se intercalando com inseguranças deles no “presente” do final de semana do casamento. Isso passaria a clara ideia para nós de que eles estavam, sim, confusos ao se casar, e essas dúvidas acabariam se tornando maiores que o sentimento. Nós cairíamos nessa. Ou então flash forwards dos Erikssen no exterior, com novos filhos, e dando importância à história deles. Isso não influenciaria a trama de Ted. Leia novamente os motivos que citei aqui: com essa simples ferramenta, a maioria deles seria resolvido.

Todas essas informações, se diluídas durante a última temporada, teriam gerado muito mais empatia por parte dos espectadores. Mas a vontade de criar uma grande reviravolta no final foi maior do que o desejo de construir uma temporada inteira bem estruturada, com um encerramento mais “pés no chão”.

Que fique claro: ao contrário de muita gente que considerou o tema pesado demais para uma sitcom, eu não achei ruim a morte da mãe (leia essa frase novamente e me considere um psicopata) na série. Inclusive, achei que conversou muito bem com o resto do seriado, que sempre tentou mostrar que, apesar de fazermos milhões de planos, quase nunca as coisas saem do jeito que queremos, e cabe a nós nos adaptar e fazer o melhor com o que temos.

A ideia, pra mim, foi muito boa e corajosa; pesada sim, mas arrojada. Porém, a execução dessa ideia foi falha, o que arranhou a imagem de um trabalho sensacional.

Em suma, mesmo com todos esses defeitos, a série continua sendo um marco na televisão – mesmo nessa Era de Ouro da televisão americana. Foi exatamente por isso que citei 8 motivos pelos quais a série foi ótima e “apenas” 7 pelos quais o final foi ruim; a série termina com um saldo positivo, os bons motivos ganham e eu escapo de uma surra na rua.

 

Texto originalmente publicado no site cuzcuzliterario.com.br, em 2015

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